O Céu de Todas as Madrugadas
“A noite chegara progressiva como a imagem de uma arraia aproximando-se, aproximando-se, aproximando-se negra e lenta em forma e movimento num plano de véu. Depois, tornar-se o céu, imensa placa nebulosa cinza. Tal como o mármore. Sem a explicação do porquê.
O céu desabava em conta-gotas e Ela dirigia o automóvel. E dirigindo o automóvel chorava como um rio. E chovia a chuva sobre o verde e o concreto da cidade. E real era o som da chuva que parecia de plástico. Em simbiose. Em simetria. Em torno do silêncio. Ela chorava. Como se o coração puro e diluído fosse. Por a realidade atrapalhar as teorias? Por pensar que o belo fosse promessa de felicidade? O que pensava Deus quando fez seres humanos tão tristes?
O sal molhava o rosto repleto de sinais, envolto por longos cachos de cabelos negros E o automóvel a arrastava pela estrada de asfalto: uma pista que seguia, um caminho. Bússola sem norte flutuando no ar que se respira: um painel cruzando diversas ruas noite adentro. Ela e seus 10.000.000.000 de neurônios que comandavam seu corpo conduzindo o carro; aprisionando responsabilidades e esperanças sempre prestes. Provavelmente, santificando o que nunca fora santo, magnetizando culpas e perdões; sistematizando pretéritos perfeitos que o tempo leva e não volta atrás numa forma invertida de felicidade. Seria possível que desejasse apenas estar na imaginação de alguém ou habitar um filme francês, “o amor e sua ausência”. Ela: carta sem perfume, vaso sem flores, porta sem maçaneta, carrossel desabitado. Tudo poderia ser mentira mas, desde que provasse o contrário. Ana Amélia, uma arqueóloga em vestígios
Ali, assim, talvez, tentasse, apenas, fugir. Parecia não querer chegar em casa: para quê deitar para tentar morrer? Estava condenada? Desde que nascera. Estava condenada a reconhecer, reconstruir, redemoinhar, reencontrar, refletir, reincidir, rejeitar, renunciar, respeitar, ressurgir, restar, ressaltar, reverenciar, revidar. Era natural que chorasse e tivesse a ausência como companhia. Ainda assim, com seus olhos grandes e negros, era capaz de iluminar qualquer terraço. Mas, o que pensava Deus quando fez seres humanos tão tristes? (...)”
O céu desabava em conta-gotas e Ela dirigia o automóvel. E dirigindo o automóvel chorava como um rio. E chovia a chuva sobre o verde e o concreto da cidade. E real era o som da chuva que parecia de plástico. Em simbiose. Em simetria. Em torno do silêncio. Ela chorava. Como se o coração puro e diluído fosse. Por a realidade atrapalhar as teorias? Por pensar que o belo fosse promessa de felicidade? O que pensava Deus quando fez seres humanos tão tristes?
O sal molhava o rosto repleto de sinais, envolto por longos cachos de cabelos negros E o automóvel a arrastava pela estrada de asfalto: uma pista que seguia, um caminho. Bússola sem norte flutuando no ar que se respira: um painel cruzando diversas ruas noite adentro. Ela e seus 10.000.000.000 de neurônios que comandavam seu corpo conduzindo o carro; aprisionando responsabilidades e esperanças sempre prestes. Provavelmente, santificando o que nunca fora santo, magnetizando culpas e perdões; sistematizando pretéritos perfeitos que o tempo leva e não volta atrás numa forma invertida de felicidade. Seria possível que desejasse apenas estar na imaginação de alguém ou habitar um filme francês, “o amor e sua ausência”. Ela: carta sem perfume, vaso sem flores, porta sem maçaneta, carrossel desabitado. Tudo poderia ser mentira mas, desde que provasse o contrário. Ana Amélia, uma arqueóloga em vestígios
Ali, assim, talvez, tentasse, apenas, fugir. Parecia não querer chegar em casa: para quê deitar para tentar morrer? Estava condenada? Desde que nascera. Estava condenada a reconhecer, reconstruir, redemoinhar, reencontrar, refletir, reincidir, rejeitar, renunciar, respeitar, ressurgir, restar, ressaltar, reverenciar, revidar. Era natural que chorasse e tivesse a ausência como companhia. Ainda assim, com seus olhos grandes e negros, era capaz de iluminar qualquer terraço. Mas, o que pensava Deus quando fez seres humanos tão tristes? (...)”

2 Comentários:
Consegui sentir toda tristeza, toda angústia dela, guiando sem ao menos tentar espantar o som gritante da solidão com uma música no rádio. E a culpa não é de Deus... é dela, ou de alguém que só deixou a ausência. Triste e poético. Lindo. Bjos.
É uma história triste, não é, Dedinhos? Depois que terminei vi que se tratava de uma história que contava a história de várias pessoas. É muita gente triste nesse mundo, não é?
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial