quinta-feira, 31 de julho de 2008

As Perdas nossas de cada dia

Não costumo refletir sobre as perdas. Mas isso não quer dizer que seja indiferente a elas. As perdas doem. Algo deixar de existir é algo muito triste. Talvez, por isso, negue-me a refletir a respeito. Talvez por não ter sido ensinado a perder. Em gearl, não se está preparado para perder. Primeiro, na infância, costuma-se perder objetos; na juventude, jogos, namorados e namoradas; na idade adulta costuma-se perder a razão e oportunidades e na velhice, definitivamente, pessoas, não necessariamente nessa ordem. A vida é tão matreira que o que perdemos na maioria das vezes não percebemos. Isso é difícil de aceitar. Pior é quando a perda envolve pessoas, quando não temos oportunidade de dizer adeus ou quando tomamos consciência de que poderíamos ter feito em relação a elas: uma oportunidade de nos tornarmos mais dignos; mais vivos; mais humanos; mais racionais. Observar a dor da perda nos outros é muitas vezes, egoisticamente, um alivio porque não se trata de nós. Mas, e quando nossa hora chegar? O que seríamos capazes pensar, querer? Será que haverá alguém ao nosso lado? Piegas é uma palavra que existe e pode ter um significado muito diferente do que imaginamos. Na maioria das vezes não sabemos o que é realidade. Apenas imaginamos.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O Silêncio que ninguém ouviu

Gosto de Lars Von Trier. Entre os cineastas mais recentes, o mais interessante. Sempre que assisto seus filmes penso exatamente com a densidade que queria pensar. Foi assim em “Nó na garganta”, “Dançando no Escuro”, “Dogville”, “Monderlay” e agora, recentemente, “Ondas do Destino”. Suas preocupações também se fazem minhas. São repetitivas mas não menos interessantes em cada filme. Os temas são sempre os mesmos: conservadorismo, corrupção moral, intolerância, alteridade, ilusões. Assisti “Ondas do Destino” e, mais uma vez, os temas foram esses. No entanto, centrado no “Amor”, tema recentemente redescoberto por artistas, intelectuais e irreconhecível muitas vezes por muitos amantes. A trilha sonora é interessante porque reúne canções memoráveis da década de 70. Ouvir Leonard Cohen no cinema é sempre uma experiência incomum. Mesmo porque não se faz mais trilhas como antigamente. Passei duas horas após sair do cinema e jantar em silêncio. Perguntado se havia gostado do filme disse que sim. Embora preferisse “Hulk”, “Kung Fu Panda”, “Jogo de Amor em Las Vegas” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. É mais ou menos como disse Heath Ledger, ao fazer o Coringa: “Escolhi o caos”.

domingo, 27 de julho de 2008

Eita, "Cabra" Complicado

As coisas poderiam ser mais fáceis se quisesse. Acontece que eu não quero. Amanhã será outro dia.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O Céu de Todas as Madrugadas

“A noite chegara progressiva como a imagem de uma arraia aproximando-se, aproximando-se, aproximando-se negra e lenta em forma e movimento num plano de véu. Depois, tornar-se o céu, imensa placa nebulosa cinza. Tal como o mármore. Sem a explicação do porquê.
O céu desabava em conta-gotas e Ela dirigia o automóvel. E dirigindo o automóvel chorava como um rio. E chovia a chuva sobre o verde e o concreto da cidade. E real era o som da chuva que parecia de plástico. Em simbiose. Em simetria. Em torno do silêncio. Ela chorava. Como se o coração puro e diluído fosse. Por a realidade atrapalhar as teorias? Por pensar que o belo fosse promessa de felicidade? O que pensava Deus quando fez seres humanos tão tristes?
O sal molhava o rosto repleto de sinais, envolto por longos cachos de cabelos negros E o automóvel a arrastava pela estrada de asfalto: uma pista que seguia, um caminho. Bússola sem norte flutuando no ar que se respira: um painel cruzando diversas ruas noite adentro. Ela e seus 10.000.000.000 de neurônios que comandavam seu corpo conduzindo o carro; aprisionando responsabilidades e esperanças sempre prestes. Provavelmente, santificando o que nunca fora santo, magnetizando culpas e perdões; sistematizando pretéritos perfeitos que o tempo leva e não volta atrás numa forma invertida de felicidade. Seria possível que desejasse apenas estar na imaginação de alguém ou habitar um filme francês, “o amor e sua ausência”. Ela: carta sem perfume, vaso sem flores, porta sem maçaneta, carrossel desabitado. Tudo poderia ser mentira mas, desde que provasse o contrário. Ana Amélia, uma arqueóloga em vestígios
Ali, assim, talvez, tentasse, apenas, fugir. Parecia não querer chegar em casa: para quê deitar para tentar morrer? Estava condenada? Desde que nascera. Estava condenada a reconhecer, reconstruir, redemoinhar, reencontrar, refletir, reincidir, rejeitar, renunciar, respeitar, ressurgir, restar, ressaltar, reverenciar, revidar. Era natural que chorasse e tivesse a ausência como companhia. Ainda assim, com seus olhos grandes e negros, era capaz de iluminar qualquer terraço. Mas, o que pensava Deus quando fez seres humanos tão tristes? (...)”

Confissões de Um Serial Killer

Se arrependimento matasse
Estaria morto de saudades
Mas isso não é importante

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O Chato

O que pode ser interpretado como chato? Alguém que muito pergunta ou alguém que quase nada responde? Um desejo que custa caro? Receber telefonemas na hora do sexo? Pêsames? Não em muitas respostas? Uma chamada não atendida? Ser tratado como bêbado mesmo estando bêbado? Pedir desculpas? O mentiroso não porque é até divertido perceber alguém mentindo. Afinal, mentira tem pernas curtas. Mal pagador, com toda a certeza. Alguém que se tem saudade e está distante. Pessimistas. Televisão. Inteligência sem propósito. O mal gosto do novo rico. Trabalhar muito e ganhar pouco. Ônibus que queima parada. Multas. Gente que acha que você é incapaz de perceber as coisas. Ser acordado como não se merece. Bajulador. Pessoas que não querem crescer. Avarentos. Histeria de quem não sabe esperar. Desconfiança de quem não se assume. O Talvez. Palavras não localizadas no dicionário. Palavras malditas. Palavras mal ditas. Ser destratado por garçom. Cinismo - mas o que seria de nós sem ele? Fila. Grito. Burrice. Fome. Ciúme. Grude. Suvaqueira. Chulé. Putz: é melhor pensar que chato é apenas uma coceira.

terça-feira, 22 de julho de 2008

DIZEM QUE O AMOR MORREU

Dizem que o amor morreu. Morreu nada... Está de recesso. O problema é que a quantidade de tabacudo que existe nesse mundo é muito grande e ele, o amor gostoso, cansou. Esqueceram de amar o amor. Ele ficou triste e foi embora. Ficaram as pessoas. Amam-se as pessoas. É por isso que as coisas não estão funcionando bem.

A ausência do amor é uma coisa muito séria. Não sei o porquê mas agora lembro do caso de Satanás. Deus, irado com a intransigência do Cramunhão, mandou ele se retirar do Paraíso e com toda a formalidade que lhe é peculiar disse: “A partir de agora não amarás”. Pior para Satã que desceu para o Inferno onde construiu sua cabana. Dizem as “más” línguas que o diabo é até gente boa, pai do rock e tal mas o problema é que ele não pode amar. Inclusive, acho que o caso de Satanás foi a primeira tentativa de golpe registrada nos anais histórico-literários da humanidade. Mas isso é uma outra história.

Acho que Satã ainda é puto com essa história de não amar. De vez em quando manda um recado. Já pensaram uma vida sem amores? Quaisquer amores. Que tédio... Pouco significativas seriam as memórias e imaginações. Bossa-nova, samba e fado não fariam sentido. Sofreríamos bem menos, é verdade, mas não teríamos as grandes obras literárias e as inesquecíveis produções cinematográficas. As Floriculturas teriam convênios exclusivos com Cemitérios e fechariam na hora do almoço. Sorriríamos menos.

Bom, na ausência do amor o sexo tomou conta. Acontece que o sexo só dura entre 30 e 60 minutos, em média, dizem. O sexo é sempre bem-vindo mas quando cisma fala muita besteira e causa muitos problemas. Na verdade o sexo é uma vadia perigosíssima que, com o passar do tempo, rabujenta, não respeita as melhores palavras e é capaz de assassinar com requintes de crueldade as melhores intenções. Se continuar assim, acho que o amor não volta mais. Por birra. A não ser que se peça desculpas. O que não custa nada. O amor só quer um pouco mais de atenção e programas mais interessantes. Não custa nada ser mais gentil.