sábado, 23 de agosto de 2008

O Poeta, segundo Vinicius de Moraes

A vida do poeta tem um ritmo diferente. É um contínuo de dor angustiante. O poeta é o destinado do sofrimento que lhe clareia a visão da beleza e a sua alma é uma parcela do infinito distante. O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.
Ele é o eterno errante dos caminhos que vai, pisando a terra e olhando o céu preso pelos extremos intangíveis. Clareando como um raio de sol a paisagem da vida. O poeta tem o coração claro das aves e a sensibilidade das crianças. O poeta chora. Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes olhando o espaço imenso de sua alma. O poeta sorri. Sorri à vida e à beleza e à amizade. Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam. O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras. Sua alma as compreende na luz e na lama. Ele é cheio de respeito para com as coisas da morte. O poeta não teme a morte. Seu espírito penetra a sua visão silenciosa e a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério. A sua poesia é a razão de sua existência. Ela o faz puro e grande e nobre e o consola da dor e o consola da angústia.
A vida do poeta tem um ritmo diferente. Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu. Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis. O poeta é uma criança que aprendeu a falar.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Mania de Brasileiro

È mania de brasileiro achar que pode tudo, a qualquer hora. Não, não pode. Por que poderia? Será que o brasileiro é mesmo diferente de tudo e de todos como pensa que é? “Jeitinho brasileiro é o que diferencia...” O que é jeitinho brasileiro? Se dar bem a qualquer custo por incompetência ou falta de educação?
Quer freqüentar os melhores lugares sem ter dinheiro para gastar. Quer as melhores mulheres mas é incapaz de uma gentileza. Quer falar bonito mas não planeja um raciocínio. Quer sempre que acreditem em mentiras mas não aprendeu que para isso tem que falar ao menos algumas verdades. Quer se destacar mas esquece a autenticidade. Costuma até achar que democracia é apenas o direito de voto.
É por isso que tem dificuldades. Depois, fica falando qualquer coisa, pra lá de Marrakesh: Critica governo mas não sabe como funciona a máquina; fala do passado mas é desconhecedor dos meandros e possibilidades da História; discute futebol mas não sabe a escalação de seu time. Fala de Literatura sem ter lido meia dúzia de livros. Critica o popular como se pertencesse a uma elite. Aí fica difícil!!
Outra mania: brasileiro agora quer ser artista. De uma maneira ou de outra. A quantidade de cineastas sem filma; escritores sem livros e artistas plásticos "soltos" pelas cidades é impressionante. Por que ninguém quer ser um bom público? Está faltando público. Assim como, numa cidade próxima, vai acabar faltando eleitor!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

De uma sinceridade ímpar embora pudesse ter sido bar

Às vezes, do nada, de onde não se sabe ao certo, surge uma imensa vontade de tomar uma cerveja. No entanto, mais importante que esse desejo é o convite para partilhar esse desejo. E mais importante que o convite da partilha é a capacidade de dizer sim dos que são convidados. É uma pena que essa máxima não seja de conhecimento de todos aqueles que são.Há dias que as coisas não dão muito certo, apesar de um belo dia de sol, das responsabilidades em dia etc e tal. Mas não há como saber previamente sobre esses dias. Porque acontecem sempre sem sobreaviso. O engraçado é que sem sobreaviso liguei para os amigos a fim de tomar cerveja: os que não souberam escolher a profissão estavam de plantão; os que estavam com a consciência pesada saíram com seus filhos; os surpreendentes viajaram para um outro estado, para uma festa de uma família que não existia há dois meses antes; os bêbados desligaram o telefone; os cínicos amanheceram doentes; os desocupados se preparavam para assistir aos jogos do Santa Cruz e do Náutico; os desorganizados confessos estavam no escritório; os artistas, ultimamente, estavam muito chatos e loucos; os reféns estavam dando aula; a namorada não queria me ver tão cedo, embora cedo sempre acordasse. E eu, ali, em mim, tão logo, tão cedo, tão nada e indeciso.Pensei ir à praia ver as meninas de biquíni. O tempo nublou e abafou a brisa que a mim seria agradável. Desisti. Pensei em visitar minha família. Mas será que eles se lembrariam ainda de mim? Desisti. Ler, escrever, computador. Melhor não. Durante cinco dias da semana e aproximadamente sete horas por dia estou lendo, escrevendo e pesquisando. Desisti. Cinema. Na semana anterior assisti a todos os filmes que me interessavam. Além do mais, ainda não eram nem onze horas da manhã. Não havia nem do que desistir. Mas teria desistido se fosse possível. Perguntei a minha mãe se ela queria ajuda com os legumes do almoço e a mim foi dito que eu sou atrapalhado com assuntos que não me dizem respeito. Até que resolvi pensar em ficar em casa ouvindo música e tomando cerveja. Seria legal. Mas acontece que eu só queria ouvir bossa nova e os cds que queria ouvir estavam na casa de um casal amigo que esquecemos quando lá fomos antes de um desentendimento comum sobre coisas que poderiam deixar de existir facilmente. Mas o que importa é que esse dia foi de uma sinceridade ímpar. Embora pudesse ao menos uma vez ter sido bar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Minha Sobra

Tenho uma namorada que se chama Renata Maria: linda, musa, a quem eu carinhosamente chamo de “Comunista Mulherzinha”. Ela, assim como todos nós, tem uma mãe. Uma mãe que, assim como todas as outras pessoas, possui suas particularidades. A mãe de Renatinha é pirangueira.

Renata não mora mais com os pais faz muito tempo. Mas, de quando em quando, conta algumas histórias quando faz uma visita. Umas tristes, outras misteriosas e ainda há aquelas muito engraçadas. Renatinha contou que a mãe dela sempre teve o hábito de colocar muita água nos anti-sépticos bucais. Era uma mania desagradável. Quem usa esse tipo de substância sabe do que estou falando quando há a desmedida na mistura de água. As desculpas sempre foram as mais variadas possíveis: “Não misturar águas nos anti-sépticos bucais significa render-se a exploração do consumo imposto pelos manuais de instruções das grandes indústrias responsáveis pelos hábitos das pessoas. Precisamos frear essa onda de consumo; repensar a maneira de vivermos. Não podemos ser escravos do consumo das pessoas etc etc etc”; ou ainda: “É muito forte minha, filha. Pode prejudicar os estômago. Certa vez li numa Revista que agora não lembro o nome que disse que os produtos usados na composição do produto podem não sei o que lá, não sei o que lá, não sei o que lá etc etc etc”; “Temos que economizar porque a nossa situação e a situação do país faz com que nós possamos etc etc etc entre outras desculpas de pirangueiros. Renatinha sempre se queixou da pirangagem que muitas vezes causaram desconfortos.

Fazia tempo que Renatinha não visitava sua mãe. Foi visitá-la e sua mãe quis agradá-la de todas às maneiras sem perder a insustentável leveza do seu ser: a pirangagem a fim de, inclusive, evitar maiores desavenças. Tentou fazer tudo no capricho, sem deixar muito evidente a piragagem para agradar a filha. Do carpete ao almoço; da cozinha a sala de jantar: tudo nos triques. Quando Renatinha foi escovar os dentes e usar o anti-séptico sua mãe muito feliz, a fim de fazer uma surpresa a filha, foi atrás. Ao esperar a filha escovar os dentes e bochechar a substância higiênica, a Expectativa:

“E aí, filha, notou alguma coisa diferente?”

Renata, desanimada, responde:

“Não, nada. Você continua misturando água no anti-séptico bucal”

Carinhosamente e de maneira espetacular minha sogra responde:

“É, mas a água que eu usei foi água mineral...”

Essa mulher pediu para ser pirangueira e foi para a fila três vezes!