quarta-feira, 24 de setembro de 2008

REIS

Sempre ouço Roberto Carlos. Não devo satisfações a ninguém por isso. Durante muito tempo também ouvi Reginaldo Rossi e também não devo satisfações a ninguém. Recentemente  estou ouvindo Michael Jackson e não preciso repetir o que já disse que não devia dar. Roberto Carlos, Reginaldo Rossi e Michael Jackson: que caminho os une? Qual distância os separa? Aparentemente, nenhuma, mas, todos são reconhecidamente Reis. Eu tentarei explicar.

Roberto Carlos é quase unanimidade. O que me impressiona no cidadão é a simplicidade. Como alguém pode ser tão profundo em tão poucas palavras? As circuntâncias criadas por esse cidadão, nascido no Espírito Santo, são inacreditáveis? Funcionam em taxis, carros de amigo, festas, após o amor... Cada música que ouço me soa familiar, traz-me recorações e reflexões maravilhosas. Quando ouço "Seus Botões",, a maneira catártica que ele canta: "Chovia lá fora e capa toda molhada..." A música conta a histórias de dois amantes que incrontolavelemnte fazem amor enquanto chove. O que tem de especial nisso? A maneira como é contada a história. Roberto é uma mago com sua sensiblidade de camponês. 

O que dizer de Reginaldo Rossi? Bom, todos limitam-se a lembrar de "Garçom". Há uma música que a mim é especial: "Dizem que o seu coração, voa mais que avião, dizem que se amor, só tem gosto de fel, vai trair o marido em plena lua-de-mel." Música de corno, diria um aculturado. " Ai, de ti, Mortal, que não presta atenção na sabedoria popular". Sério.  A música não tem nada de apológética. POr favor, não ignorem o que diz a populaça e seu representantes. Sabem mais que nós outros do que nós mesmos. Nada como apreciar uma maneira original e autêntica de dizer as coisas. Mais: sobre os nossos íntimos desejos recônditos. É melhor rir....pra...Vocês sbaem...

É incrível como Michael é pertinente. O cara escreveu "Thriler"  há quase 30 anos e quando ouço o disco...Se não o conhecesse e dissessem a mim que  havia sido lançado ontem não só apreciaria como também viraria fã. Já perceberam a soficticação e simplicidade das músicas do cd? Baixo, Guitarra, bateria, um tecladinho e, no máximo, um sintetizador para dar o grau. Michel era o que era por sua autenticidade, interpretação e perfeccionismo. A coreografia, por exemplo, de "Thriler", levou seis meses para terminar. O "Moonwalker" (o  passinho pra trás) até hoje causa frisson. Nem precisa falar dos videoclips com as linguagens revolucionadas por ele trazendo de volta os curtas- metragens. Quando ouço "Billy Jean"....Já cantei muito essa música. Quando era pirralho abria a geladeira e dançava no ar frio simulando gelo seco; fazia coreografias saindo do bueiro para dar realidade a cena, como um Francis Ford Coppola.

Ainda bem que não sou classe média para perceber tudo isso. Ainda bem que não sou classe média para zombar de tudo isso.

sábado, 23 de agosto de 2008

O Poeta, segundo Vinicius de Moraes

A vida do poeta tem um ritmo diferente. É um contínuo de dor angustiante. O poeta é o destinado do sofrimento que lhe clareia a visão da beleza e a sua alma é uma parcela do infinito distante. O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.
Ele é o eterno errante dos caminhos que vai, pisando a terra e olhando o céu preso pelos extremos intangíveis. Clareando como um raio de sol a paisagem da vida. O poeta tem o coração claro das aves e a sensibilidade das crianças. O poeta chora. Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes olhando o espaço imenso de sua alma. O poeta sorri. Sorri à vida e à beleza e à amizade. Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam. O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras. Sua alma as compreende na luz e na lama. Ele é cheio de respeito para com as coisas da morte. O poeta não teme a morte. Seu espírito penetra a sua visão silenciosa e a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério. A sua poesia é a razão de sua existência. Ela o faz puro e grande e nobre e o consola da dor e o consola da angústia.
A vida do poeta tem um ritmo diferente. Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu. Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis. O poeta é uma criança que aprendeu a falar.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Mania de Brasileiro

È mania de brasileiro achar que pode tudo, a qualquer hora. Não, não pode. Por que poderia? Será que o brasileiro é mesmo diferente de tudo e de todos como pensa que é? “Jeitinho brasileiro é o que diferencia...” O que é jeitinho brasileiro? Se dar bem a qualquer custo por incompetência ou falta de educação?
Quer freqüentar os melhores lugares sem ter dinheiro para gastar. Quer as melhores mulheres mas é incapaz de uma gentileza. Quer falar bonito mas não planeja um raciocínio. Quer sempre que acreditem em mentiras mas não aprendeu que para isso tem que falar ao menos algumas verdades. Quer se destacar mas esquece a autenticidade. Costuma até achar que democracia é apenas o direito de voto.
É por isso que tem dificuldades. Depois, fica falando qualquer coisa, pra lá de Marrakesh: Critica governo mas não sabe como funciona a máquina; fala do passado mas é desconhecedor dos meandros e possibilidades da História; discute futebol mas não sabe a escalação de seu time. Fala de Literatura sem ter lido meia dúzia de livros. Critica o popular como se pertencesse a uma elite. Aí fica difícil!!
Outra mania: brasileiro agora quer ser artista. De uma maneira ou de outra. A quantidade de cineastas sem filma; escritores sem livros e artistas plásticos "soltos" pelas cidades é impressionante. Por que ninguém quer ser um bom público? Está faltando público. Assim como, numa cidade próxima, vai acabar faltando eleitor!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

De uma sinceridade ímpar embora pudesse ter sido bar

Às vezes, do nada, de onde não se sabe ao certo, surge uma imensa vontade de tomar uma cerveja. No entanto, mais importante que esse desejo é o convite para partilhar esse desejo. E mais importante que o convite da partilha é a capacidade de dizer sim dos que são convidados. É uma pena que essa máxima não seja de conhecimento de todos aqueles que são.Há dias que as coisas não dão muito certo, apesar de um belo dia de sol, das responsabilidades em dia etc e tal. Mas não há como saber previamente sobre esses dias. Porque acontecem sempre sem sobreaviso. O engraçado é que sem sobreaviso liguei para os amigos a fim de tomar cerveja: os que não souberam escolher a profissão estavam de plantão; os que estavam com a consciência pesada saíram com seus filhos; os surpreendentes viajaram para um outro estado, para uma festa de uma família que não existia há dois meses antes; os bêbados desligaram o telefone; os cínicos amanheceram doentes; os desocupados se preparavam para assistir aos jogos do Santa Cruz e do Náutico; os desorganizados confessos estavam no escritório; os artistas, ultimamente, estavam muito chatos e loucos; os reféns estavam dando aula; a namorada não queria me ver tão cedo, embora cedo sempre acordasse. E eu, ali, em mim, tão logo, tão cedo, tão nada e indeciso.Pensei ir à praia ver as meninas de biquíni. O tempo nublou e abafou a brisa que a mim seria agradável. Desisti. Pensei em visitar minha família. Mas será que eles se lembrariam ainda de mim? Desisti. Ler, escrever, computador. Melhor não. Durante cinco dias da semana e aproximadamente sete horas por dia estou lendo, escrevendo e pesquisando. Desisti. Cinema. Na semana anterior assisti a todos os filmes que me interessavam. Além do mais, ainda não eram nem onze horas da manhã. Não havia nem do que desistir. Mas teria desistido se fosse possível. Perguntei a minha mãe se ela queria ajuda com os legumes do almoço e a mim foi dito que eu sou atrapalhado com assuntos que não me dizem respeito. Até que resolvi pensar em ficar em casa ouvindo música e tomando cerveja. Seria legal. Mas acontece que eu só queria ouvir bossa nova e os cds que queria ouvir estavam na casa de um casal amigo que esquecemos quando lá fomos antes de um desentendimento comum sobre coisas que poderiam deixar de existir facilmente. Mas o que importa é que esse dia foi de uma sinceridade ímpar. Embora pudesse ao menos uma vez ter sido bar.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Minha Sobra

Tenho uma namorada que se chama Renata Maria: linda, musa, a quem eu carinhosamente chamo de “Comunista Mulherzinha”. Ela, assim como todos nós, tem uma mãe. Uma mãe que, assim como todas as outras pessoas, possui suas particularidades. A mãe de Renatinha é pirangueira.

Renata não mora mais com os pais faz muito tempo. Mas, de quando em quando, conta algumas histórias quando faz uma visita. Umas tristes, outras misteriosas e ainda há aquelas muito engraçadas. Renatinha contou que a mãe dela sempre teve o hábito de colocar muita água nos anti-sépticos bucais. Era uma mania desagradável. Quem usa esse tipo de substância sabe do que estou falando quando há a desmedida na mistura de água. As desculpas sempre foram as mais variadas possíveis: “Não misturar águas nos anti-sépticos bucais significa render-se a exploração do consumo imposto pelos manuais de instruções das grandes indústrias responsáveis pelos hábitos das pessoas. Precisamos frear essa onda de consumo; repensar a maneira de vivermos. Não podemos ser escravos do consumo das pessoas etc etc etc”; ou ainda: “É muito forte minha, filha. Pode prejudicar os estômago. Certa vez li numa Revista que agora não lembro o nome que disse que os produtos usados na composição do produto podem não sei o que lá, não sei o que lá, não sei o que lá etc etc etc”; “Temos que economizar porque a nossa situação e a situação do país faz com que nós possamos etc etc etc entre outras desculpas de pirangueiros. Renatinha sempre se queixou da pirangagem que muitas vezes causaram desconfortos.

Fazia tempo que Renatinha não visitava sua mãe. Foi visitá-la e sua mãe quis agradá-la de todas às maneiras sem perder a insustentável leveza do seu ser: a pirangagem a fim de, inclusive, evitar maiores desavenças. Tentou fazer tudo no capricho, sem deixar muito evidente a piragagem para agradar a filha. Do carpete ao almoço; da cozinha a sala de jantar: tudo nos triques. Quando Renatinha foi escovar os dentes e usar o anti-séptico sua mãe muito feliz, a fim de fazer uma surpresa a filha, foi atrás. Ao esperar a filha escovar os dentes e bochechar a substância higiênica, a Expectativa:

“E aí, filha, notou alguma coisa diferente?”

Renata, desanimada, responde:

“Não, nada. Você continua misturando água no anti-séptico bucal”

Carinhosamente e de maneira espetacular minha sogra responde:

“É, mas a água que eu usei foi água mineral...”

Essa mulher pediu para ser pirangueira e foi para a fila três vezes!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

As Perdas nossas de cada dia

Não costumo refletir sobre as perdas. Mas isso não quer dizer que seja indiferente a elas. As perdas doem. Algo deixar de existir é algo muito triste. Talvez, por isso, negue-me a refletir a respeito. Talvez por não ter sido ensinado a perder. Em gearl, não se está preparado para perder. Primeiro, na infância, costuma-se perder objetos; na juventude, jogos, namorados e namoradas; na idade adulta costuma-se perder a razão e oportunidades e na velhice, definitivamente, pessoas, não necessariamente nessa ordem. A vida é tão matreira que o que perdemos na maioria das vezes não percebemos. Isso é difícil de aceitar. Pior é quando a perda envolve pessoas, quando não temos oportunidade de dizer adeus ou quando tomamos consciência de que poderíamos ter feito em relação a elas: uma oportunidade de nos tornarmos mais dignos; mais vivos; mais humanos; mais racionais. Observar a dor da perda nos outros é muitas vezes, egoisticamente, um alivio porque não se trata de nós. Mas, e quando nossa hora chegar? O que seríamos capazes pensar, querer? Será que haverá alguém ao nosso lado? Piegas é uma palavra que existe e pode ter um significado muito diferente do que imaginamos. Na maioria das vezes não sabemos o que é realidade. Apenas imaginamos.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O Silêncio que ninguém ouviu

Gosto de Lars Von Trier. Entre os cineastas mais recentes, o mais interessante. Sempre que assisto seus filmes penso exatamente com a densidade que queria pensar. Foi assim em “Nó na garganta”, “Dançando no Escuro”, “Dogville”, “Monderlay” e agora, recentemente, “Ondas do Destino”. Suas preocupações também se fazem minhas. São repetitivas mas não menos interessantes em cada filme. Os temas são sempre os mesmos: conservadorismo, corrupção moral, intolerância, alteridade, ilusões. Assisti “Ondas do Destino” e, mais uma vez, os temas foram esses. No entanto, centrado no “Amor”, tema recentemente redescoberto por artistas, intelectuais e irreconhecível muitas vezes por muitos amantes. A trilha sonora é interessante porque reúne canções memoráveis da década de 70. Ouvir Leonard Cohen no cinema é sempre uma experiência incomum. Mesmo porque não se faz mais trilhas como antigamente. Passei duas horas após sair do cinema e jantar em silêncio. Perguntado se havia gostado do filme disse que sim. Embora preferisse “Hulk”, “Kung Fu Panda”, “Jogo de Amor em Las Vegas” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. É mais ou menos como disse Heath Ledger, ao fazer o Coringa: “Escolhi o caos”.